Sempre que ouvia falar que a cantora Zélia Duncan iria fazer um show na cidade de São Paulo, os ingressos já estavam esgotados com muita antecedência. Nunca entendia o porquê e me frustrava, pois sempre ficava no ar a vontade de ver um show exclusivo da cantora.
A questão dos ingressos ficou bastante clara antes mesmo de chegar ao SESC Pinheiros. No ônibus, a caminho, encontrei com alguns fãs entusiasmados com o show. A empolgação era tanta que entrei no clima de euforia, na expectativa de assistir a cantora.
Em uma temporada de seis shows na cidade, consegui um ingresso, no balcão do Teatro Paulo Autran, para assistir a abertura dessa maratona lírica. Finalmente, depois de tanto me decepcionar, estava lá pra ver e ouvir, ao vivo. Valeu muito insistir e aguardar por esse momento tão efêmero.
O talento dessa artista é imenso. Já faz muito tempo que ela se consagrou com várias músicas tocando incessantemente pelas rádios do país. O último álbum “Pelo Sabor do Gesto”, lançado em 2009, é disparado um dos seus melhores e conta com as participações de Fernanda Takai e Chico César. Fica difícil dizer que é um dos melhores em meio ao mundo de belos discos que a cantora já fez, mas essa é a minha opinião. Desde a primeira audição, me identifiquei muito com o álbum.
O show. Ah, o show! Como transmitir a sensação singular em palavras? Praticamente impossível. Com um lindo cenário e painel de fundo, o palco parecia um jardim de conto de fadas, esverdeando reluzente para o público. Nos primeiros segundos, com o carisma e encanto da cantora, terminei de entender a dificuldade de conseguir ingressos para qualquer evento que ela participe. As pessoas sempre querem se sentir bem com todo esse talento nos presenteando.
Com uma banda muito coesa e bem ensaiada, o show começou com uma sequência de músicas do novo disco: Boas Razões, Ambição, Telhados de Paris e Se Um Dia Me Quiseres, mostraram que seria complicado respirar com facilidade. Mas, como eu disse, era só o começo e de imediato a cantora mandou Intimidade e Tudo Sobre Você, canção que apresentou o novo disco nas rádios. Nesse momento, as vozes entoavam com força a letra “queria descobrir em 24 horas, tudo que você adora…”.
Pra surpresa dos nostálgicos, Zélia cantou a música Felicidade, eternizada pelo Grupo Rumo no disco Ao Vivo de 1992. A interpretação dela gerou gargalhas no público, me recordei na hora da gravação original. Que excelente sensação! Esporte Fino Confortável, Aberto, Se Eu Fosse e Duas Namoradas foram a segunda leva do último lançamento da cantora. Logo em seguida, mais um presente com Cedotardar de Tom Zé.
O instante seguinte foi o ápice do show! A cantora comentou sobre uma fã de Portugal, chamada Marta Morgado, que havia lhe enviado um e-mail dizendo que ouvia as suas músicas e admirava grandemente a artista. Isso não é nada, pensando que nós também temos essa admiração. Porém o fato é que essa fã não é ouvinte como nós. O que ela fazia na realidade era traduzir as letras da cantora para a língua de sinais de Portugal. Chocada, a própria Zélia disse “eu adoro quando alguém me tira da ignorância”, pois ela não imaginava como alguém “surdo” conseguia ter as mesmas aspirações que nós ao ouvirmos as canções.
Todos os Verbos foi dedicada a esta fã e na segunda parte da canção, Zélia cantou em Lingua Brasileira de Sinais (Libras). Extremamente emocionante! Essa música é a primeira parceria de Zélia com Marcelo Jeneci. Cabe aqui uma pausa no show. Cansei de ver Marcelo Jeneci tocando sanfona na banda de forró Peixelétrico, entre 2000 e 2003. Já era nítida a qualidade desse músico e, agora, apenas confirmei o que o meu simples sentido havia ouvido há anos atrás. Voltando ao evento, Pelo Sabor do Gesto e Os Dentes Brancos do Mundo terminaram a mais tocante sequência da noite.
Em outra homenagem, acatando a sugestão da diretora do show, a artista celebrou os cinqüenta anos de carreira do rei Roberto Carlos. Zélia afirmou que quando pensou em algo de Roberto não quis escolher nada que fosse “tão famoso”, mesmo sabendo que a missão não era fácil, escolheu uma canção mais alternativa da década de 70, chamada I Love You. O bandolim da cantora chorou melodias e soou absurdamente bem, escolha mais do que acertada.
Dando continuidade, vieram Sinto Encanto, Flores e Nem Tudo. Já estava chegando o fim do show, porém, como a própria Zélia prometeu para o bis estava preparado muito mais. Depois de tudo o que vi e ouvi, não imaginava o que ainda poderia acontecer e, pra variar, não me decepcionei. Catedral foi cantada em uníssono pela platéia extasiada com a apresentação e Improvável foi a outra “das antigas”.
Convidando ao palco a cantora Lucina, parceira de alguns anos, elas nos brindaram com uma música que estou auto-denominando Tempo, já que não sei o nome, e a linda Eu Não Sou Eu, do disco Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band de 2005. “eu não sou eu, sou alguém que você imaginou, uma visão do seu amor…”. Belo demais!
Com uma sensação triste por saber que realmente estava terminando, a cantora trouxe Alma, se despedindo de todos com uma expressão de dever cumprido. Realmente, não poderia ser outra expressão. A primeira noite em São Paulo dessa temporada foi de deixar saudades. Sem dúvida alguma estarei na fila quando souber que ela retornará à cidade, não serei mais um daqueles que questionará o porquê de os ingressos acabarem tão depressa. Ficou claro, é imperdível.

























